BREVES
PALAVRAS |
Éramos seis ... as
"meninas" do Dr. Pedro Rocha do engenho
Varrela, em São Miguel dos Campos, nascidas entre 1920 e
1933. Nosso paraíso era quase auto-suficiente.
Plantava-se e criava-se de tudo. Oitocentos moradores no
censo de 1940. Festas religiosas, procissões, terços,
ladainhas, sentinelas de defunto, foguetes, folclore,
banhos de rio, andanças a cavalo, carro de boi, casa de
farinha, caçadas e pescarias.
Casa cheia na festa de São Pedro, mesa farta, família
grande, ainda rural, morando em engenhos nos municípios
de São Miguel, Pilar, Marechal Deodoro e União dos
Palmares, nas fazendas Guanabara e Anhumas.
Muitas visitas e muita troca de receitas entre as primas
sinhazinhas do século passado.
Fôrmas especiais, feitas por funileiros, ao gosto da
época (cruz de Malta, meia lua, estrela...), ferros para
fazer sonhos, cortadores para biscoitos, tudo artesanal.
Panelas de barro e de ferro, tachos de cobre, gamela e
trempes. Herdamos, pois, este gosto pelo que é da terra.
Viemos para a cidade, continuamos com a mesa farta,
conhecida no nosso círculo mais íntimo dos amigos. Às
receitas antigas, fomos acrescentando outras, deixando o
pilão pelo liqüidificador e a batedeira, o fogão a
lenha pelo de gás e o forno de microondas.
As receitas circulavam entre nós, registrando o nome de
quem nos deu ou de quem era a mais perita em determinado
prato: brasileira da Caetana (escrava do engenho Cumbe),
pudim abolicionista (sucesso do fim do século XIX) de
tia Chiquinha, Caruru de Tia Lili, Vatapá de Mãe Dah,
bolo de Milho de D. Ritinha Brennand, amiga da família,
diretora do antigo Grupo Escolar Fernandes Lima, na Rua
do Sol. Mais recente, cocada da Mema , pãozinho da Cyla,
bom bocado de Carminha, patê da prima Elza.
Há 15 anos, a pedido de nosso amigo Cônego Celso
Alípio Mendes, passamos a dirigir, junto a um grupo de
amigas cozinheiras de primeira linha, a barraca das
comidas na anual Feira da Fraternidade da Arquidiocese de
Maceió.
Passamos a fazer jantares, almoços e cafés regionais no
intuito de angariar fundos para nossa barraca. Os nossos
pratos preferidos sempre foram os da tradicional comida
alagoana, alguns esquecidos pela maioria. É costume
ouvir dos "novos comensais" este comentário:
"Comi isso na casa de minha avó, quando era
criança". Eram filhós de carnaval, tapioca
molhada, beiju chapéu de couro, imbuzada ... vai longe a
lista.
Descobrimos que nossas tradições culinária estava
prestes a desaparecer diante dos pavês, estrogonofes e
pizzas. Resolvemos fazer este livro no sentido de
preservar a memória culinária alagoana, colocando nele
tudo que costumamos fazer em nossas casas. São receitas
testadas e deliciosas, sem segredos ou temperos
exóticos.
Éramos seis ... hoje somos quatro. Jacyra ( Cyla) e
Moema ( Mema), talvez as maiores quituteiras, já não
estão entre nós, mas estão vivas em suas receitas,
neste livro.
Nossos filhos e netos serão depositários fiéis do que
estamos legando, já que conhecem de sobra o sabor de
cada prato.
IRMÃS ROCHA CAVALCANTI
Jacy Rocha Cavalcanti Medeiros
Yeda Rocha Cavalcanti Jucá
Bartyra Rocha Cavalcanti Nogueira
Maria Rocha Cavalcanti Accioly
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